05 – O Senhor da obra

Dinâmica:

Escolher dois amigos ou um casal e pedir que venham à frente. Pedir a um deles que responda as questões abaixo sobre o outro (amigo ou namorado) e invente algumas repostas (especialmente se não souber responder), de uma forma bastante convincente, de modo que todos a considerem verdadeira. Alguém deverá julgar quais as respostas verdadeiras e quais as respostas falsas.

*pessoa famosa com quem gostaria de conversar

* maior susto que já levou na vida

* esporte a que mais gosta de assistir na televisão

* livro que mais apreciou nos últimos 6 meses

* uma "aprontação" da infância

* país ou cidade que mais deseja conhecer

* tipo de música que prefere ouvir quando está sozinho 

Aplicação: Você conhece alguém falando com ela, e não ouvindo falar dela.

 

Em certa igreja haviam dois jovens que se apaixonaram por certa garota. O primeiro adorava falar dela a todos, colocando-a num pedestal dourado de beleza e perfeição. Qualquer oportunidade com um colega era usada para elogiar os cabelos dela, a voz dela, o sorriso dela, os talentos dela... de modo que todos ali tinham certeza que era uma questão de pouco tempo os dois começarem a namorar. Acontece que o segundo jovem, tímido e discreto, apareceu, um certo dia, de mãos dadas à garota. O primeiro rapaz chamou o segundo num canto e perguntou: “mas afinal, o que aconteceu? Eu falava o quão ela era maravilhosa para todas as pessoas que eu via pela frente, todos sabiam o quanto eu a admirava!”. Ao que o segundo respondeu: “É que enquanto você falava dela, eu falava com ela”. Simples assim. Enquanto o primeiro estava muito ocupado em parecer apaixonado para as pessoas, o segundo rapaz preocupou-se com a coisa certa, que era mostrar-se apaixonado para uma única pessoa: aquela que necessitava saber que era amada.

A mesma história pode acontecer com qualquer cristão que se dispõe a “cumprir fielmente a parte que lhe corresponde”. Na ânsia de mostrar-se às pessoas como um cristão impecável (e aqui já temos um paradoxo, considerando que todo cristão deve se reconhecer pecador), este pode se afastar da essência do que significa ser um cristão: um seguidor de Jesus Cristo. O apóstolo Paulo comentou sobre sua própria experiência religiosa nesses termos: “Não que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito; mas vou prosseguindo, para ver se poderei alcançar aquilo para o que fui também alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado a perfeição; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo pelo prêmio da vocação celestial de Deus em Cristo Jesus. (...) Mas, naquela medida de perfeição a que já chegamos, nela prossigamos.” (Filipenses 3: 12 – 16).

Perceba que Paulo, um dos mais dedicados seguidores de Jesus, tinha como alvo nada menos que a perfeição. Mas apesar de ser um orador fantástico e um teólogo brilhante, ele sabia que a perfeição não estava em falar belas palavras vazias sobre sua crença só para parecer perfeito aos olhos dos seus irmãos. A perfeição consistia em conviver com Cristo. A medida de perfeição de que ele fala, é a medida do quanto você conhece a Cristo. E quanto mais perto dEle, mais perfeito você será considerado, porque mais semelhante a Ele será. Como acontece quando você passa muito tempo com um amigo. Já aconteceu com você? Se já teve um amigo de verdade, aconteceu. Certo dia você está novamente com aquela pessoa com quem gosta de conversar e partilhar sua vida, e de repente alguém, que já viu vocês muitas vezes juntos, pergunta: “Vocês são irmãos?” Isso já aconteceu comigo várias vezes, e eu sempre fiquei constrangida pensando: “Nossa, mas será que sou tão parecido com ele ou com ela assim?”. E mesmo coisas gritantes como diferença da cor da pele, olhos ou cabelo não são suficientes para quebrar a semelhança. Essa semelhança, quando alcançada junto a Cristo, nos faz perfeitos porque o Pai nos olha e vê traços fortes do Seu Filho Unigênito. Pode imaginar Deus olhando para você e achando seu sorriso igualzinho ao de Jesus?

Agora compare a experiência de Paulo com a de outras pessoas como Caim, Marta e o jovem rico. O que esses três últimos personagens bíblicos têm em comum? Todos eles se empanharam bastante em agradar a Deus. Ou você acha que Deus não se agradou da oferta de Caim porque os frutos que ele trouxe eram feios? Ellen White comentando sobre isso fala em “primícias da terra”, ou seja, o que havia de melhor nos primeiros frutos[1]. E você acha que a comida que Marta fez não estava cheirando bem quando Jesus lhe reprovou? E quanto ao jovem rico, será que ele era um mau menino? Não, ele guardava todos os mandamentos. Imagino que se ele vivesse hoje, com certeza poderia ser indicado para ser diretor JA, porque aparentemente era um religioso perfeito! Então, onde está o erro desses três? Está apenas em querer agradar a Deus do seu próprio jeito, e não do jeito como Deus realmente se agradaria. Deus não precisava dos belos frutos de Caim, da comida cheirosa de Marta ou da fachada religiosa do jovem rico. Deus queria fidelidade. Deixe-me falar de mim. Será que Deus precisa do meu dinheiro? Da minha aparência? Da minha voz e talentos? Deus precisa de mim para que Jesus volte? A resposta contundente é: não, porque ninguém é insubstituível. Mas a resposta não termina aí. Tem outro mas... Deus me ama. E Ele precisa de mim junto a Ele como se não existisse mais nenhum outro ser humano na face da Terra. Perfeição é entender que grande amor nos tem concedido o Pai (I João 3:1).

A História da humanidade que está sendo registrada pelos seres celestes tem as histórias de muitos “nãos” que o Homem deu a Deus. Mas Deus nunca deixou de cuidar de seu povo por causa disso. Quando alguém dizia “não”, Ele já tinha um “plano B” preparado, de modo que Sua vontade e Seu plano de redenção continuassem a ser cumpridos. Mas como Deus chorou cada “não” que recebeu, é algo que só entenderemos por completo na eternidade. E esse é o mistério do amor: mesmo não precisando de mim, Ele me quer muito junto a Ele. Quando Deus pediu um sacrifício de sangue a Caim, a atenção espiritual de Marta e abnegação do jovem rico, Ele não o fez por capricho de um Rei Poderoso que quer que as coisas sejam feitas a sua maneira. Deus queria, tão somente, que Caim, Marta e o jovem rico se aproximassem mais dEle, que O conhecessem melhor. Deus não abriu mão de que as coisas fossem feitas à Sua maneira, porque esse era o melhor caminho para que Caim, Marta e o jovem rico alcançassem a felicidade. Esse é o objetivo por trás de cada pedido Seu.

Lembro que logo que me batizei na igreja adventista eu passei um tempo difícil de adaptação às pessoas. Como normalmente faço, eu me retraio e fico apenas observando todos ao redor, sem me envolver, antes de ter certeza do “terreno em que estou pisando”. Acontece que algumas pessoas entendem esta atitude simplesmente como antipatia, e assim, durante alguns meses eu amarguei uns cochichos estranhos por trás de mim e umas caras esquisitas quando eu passava. Era sempre de um grupinho de meninas que mais tarde vieram a se tornar minhas melhores amigas. E elas eram bem sinceras: “Luciana, no começo nós achávamos que você era metida, chata e esnobe.” E o mais engraçado é que todas elas dizem ter ouvido coisas horríveis sobre mim, que depois descobriram não ser verdade. Se elas não tivessem tomado a iniciativa se aproximar e me conhecer, até hoje continuariam me achando metida, chata e esnobe – talvez com uns adjetivos a mais. É assim também com Jesus. Ouvir falar dEle, apenas, não basta porque nunca saberemos ao certo como é o Seu caráter. Falar dEle sem o conhecer – se você conseguir fazer isso – vai acabar ficando enfadonho, sem sentido, vazio, mesmo que todos achem que você o conhece muito bem. Ser fiel não é apenas viver para o Senhor, mas com o Senhor. Você ouviu falar de Deus? Ou o conhece pessoalmente? Aproxime-se mais dEle agora mesmo e descubra, nos caminhos que Ele sonhou para você, o melhor jeito de ser feliz.


[1] WHITE, Ellen G. Patriarcas e profetas. São Paulo: CASA Publicadora, 1989. p. 71.